As palavras aparecem munidas de espadas
em qualquer pensamento branco
em qualquer momento sem Lua
em qualquer ambiente festivo
Aparecem tortas e adulteradas
E tira-nos a serenidade da face
A gargalhada muda cotidiana
O riso de canto de boca que agrada sem carecer muito
E traz a nós umas lágrimas implícitas
Um desassossego íntimo e peculiar
Expõe um grito que sempre deu voltas em nossas cabeças
Derrubam os muros que permitiam a fé no SIM
Esgana a alegria que ainda vivia a rodear-me:
- Ah, mas ainda assim sou amada!
E foram palavras que tiraram meus pés do chão
Daquele jeito pouco sério, pouco amigo, pouco coração
Da minha carência e deprimência de sentir-me sempre na contra mão
Palavras ...
levaram ontem minha velha ilusão, aquele velho espírito de falso-amor.
domingo, 31 de outubro de 2010
sábado, 30 de outubro de 2010
Ausencia
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
- VINICIUS DE MORAES
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
- VINICIUS DE MORAES
sábado, 23 de outubro de 2010
Suportar.
Onde estão minhas palavras, todas elas, não sei dizer.
Não sei.
Se o poetizar fosse meu, eternizaria em decassílabos e chamaria de "Coração do menino/ Menino do coração - Do meu".
Porém faltam-me palavras.
Palavras?
É.
E, hoje, roubam-me a alma.
Mas que vontade de olhá-lo nos olhos
E como na mais bela poesia
Deixar dizer o que sinto quando não sou egoísta:
- Suportemo-nos!
E suportar sua insegurança e essa minha insensatez
E suportando seu ceticismo e a minha ilucidez
E amando sua tristeza e minha louca escassez
E suportar seu pessimismo e essa minha morbidez
Mas eu não sei ...
E quando o olho com amor, é o decassílabo já citado
E se por horas emudeço, empobreço de vocabulário.
Não sei.
Eterniza-se aqui em gestos se o nosso assunto é tão vago.
Eu te gostei desse jeito, sem jeito, e te levo aqui, no peito
... por não saber nos suportar.
Não sei.
Se o poetizar fosse meu, eternizaria em decassílabos e chamaria de "Coração do menino/ Menino do coração - Do meu".
Porém faltam-me palavras.
Palavras?
É.
E, hoje, roubam-me a alma.
Mas que vontade de olhá-lo nos olhos
E como na mais bela poesia
Deixar dizer o que sinto quando não sou egoísta:
- Suportemo-nos!
E suportar sua insegurança e essa minha insensatez
E suportando seu ceticismo e a minha ilucidez
E amando sua tristeza e minha louca escassez
E suportar seu pessimismo e essa minha morbidez
Mas eu não sei ...
E quando o olho com amor, é o decassílabo já citado
E se por horas emudeço, empobreço de vocabulário.
Não sei.
Eterniza-se aqui em gestos se o nosso assunto é tão vago.
Eu te gostei desse jeito, sem jeito, e te levo aqui, no peito
... por não saber nos suportar.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
O apanhador de desperdícios
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água, pedra, sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos,
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
- Manoel de Barros
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água, pedra, sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos,
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
- Manoel de Barros
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