"E o tempo se vai, mas algo eu sempre guardarei: o Teu amor que um dia eu encontrei!"

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Dor.

Sou a incapaz, que não sabe agir!
Existe no mundo uma agonia tão profunda que me quebra todos os sentidos, torno-me absurdamente perplexa e levantar a cabeça é sustentar o peso do mundo. Não há dor em mim, há a dor do mundo. Há a dor dos fracos, perdidos, resignados à vida sem nenhuma rebeldia. O que eu tenho é o discurso dos que se deixaram perder: perder a fé, a esperança e o amor próprio.
Tenho a falta de medo de quem se deixou consumir pela frieza glacial do mundo e já consegue repetir sem emoção: eu quero mesmo é o inferno; eu quero mesmo a minha dor!
Eu tenho a tremedeira da dor do inferno do mundo que pode a qualquer momento arrastar-me até seu fundo de lama e apagar minha consciência e liberdade para em troca encher-me de um discurso infame de fim de mundo, de desassossego, de encantamento sexual profundo.

Mas eu tenho também, pulsando em minhas veias, o grito do sangue da cruz que é intensamente emocionado e cheio de esperança, mas que na minha perplexidade nem posso dá-lo com graça aos sofredores; tenho uma esperança viva que abre meus olhos até doerem e faz com que eu me sinta sempre estrangeira, mas na minha desilusão por tanto enxergar, nem posso mostrá-la aos aflitos com verdade.
Há um amor que queima fundo e que me diminui inteira por fazer-me consciente de que sozinha sou incapaz de curar até mesmo as pequenas feridas que me cercam, afligem e fazem com que eu sinta que a dor do outro é tão minha ...

terça-feira, 26 de março de 2013

Olha-me nos olhos e é inteiro. Pega em minhas mãos, envolve-me pelos braços e continua sendo inteiro. Gosto enquanto fala, enquanto cala, enquanto canta, enquanto abraça.
Gosto tanto de sua estatura e da força de seus abraços!
Sinto-me longe de minhas rígidas convicções quando tudo que tenho é saudade presente. Sinto-me repleta de sua ausência com qualquer palavra lida, sonhada ou pensada. É assim que sua ausência é presença pura e seus olhos, boca, rosto, mãos, braços, corpo inteiro e todo o jeito continuam sendo admirados: mesmo ausente é sempre inteiro, nunca me encontra fragmentado.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Silêncio

Vive em mim um Silêncio não-mudo, meus olhos O veem, há intensa vida, todo profundo. Não o ouço quando há barulho, movimentos ou sussurros; Ele só chega quando emudeço, eu só O vejo quando me desnudo.

Eu O vejo em diversas vidas indiferentes, em paisagens desprezadas, nas confusões de minha mente. Não O sinto quando Ele torna-se teoria infinita, homem absoluto, teologia classificadora ou quando é apenas objeto de estudo. Ele só chega quando não há nada, eu só O vejo quando perco tudo.

sábado, 2 de março de 2013

medo

Não sei como as pessoas se veem no futuro. Não sei se todas conseguem fazer o movimento de imaginar exatamente como será realizar ou não seus grandes planos.
Eu não consigo.
Quando penso sobre o assunto vejo-me com mil e uma alternativas e nenhuma imagem clara sobre nada. É tudo tão incerto que chego a imaginar que eu não exista nesse lugar; que meu medo não permitirá que eu chegue muito longe para que eu não trema inteira com um sempre novo futuro iminente.
Já tive sonhos muito fortes por si mesmos, mas não me lembro como eles eram. Não sei como foi possível imaginar e depois, no futuro que é hoje presente, viver. Eu só sei lembrar que tenho medo. Tenho medo da solidão, tenho medo do erro incorrigível, tenho medo das coisas que acabam, tenho medo de tudo que se perde, tenho medo dos novos ambientes, tenho medo da minha falta de coragem e tenho medo de estar assim com tanto medo.
E em tudo que sinto há uma parcela de medo: medo que eu sempre fuja, medo que eu nunca consiga encarar a vida de frente e medo que eu nunca me ajude a responder verdadeiramente as questões que eu mesma resolvi fazer: por que, meu Deus, por quê?
A imprecisão da vida me dá ânsia. Não de ansiedade, de vômito!

domingo, 17 de fevereiro de 2013

o novo, de novo.

Os dias passam tão rapidamente que eu esqueço de perceber a velocidade: estou mudando novamente ... e parecia tão cedo!
Sinto os dias pesando forte, queimo-me inteira com o mormaço da vida, quebro até os ossos com as minhas dores e medos mais secretos.

E hoje eu resolvi mudar.
Foram poucas palavras, rápidas, carregadas com meus traumas, medos e dores de uma caminhada inteira. Quando preciso não arranjo palavra certa, só falo seguindo uma lei que emana dos meus pensamentos ilógicos: por que todas essas coisas me matam tanto?
E eu só soube enfatizar a minha dor constante: eu não sei porque não me encaixo nunca, eu não sei porque eu não me acalmo nunca!

Mas hoje eu resolvi mudar, novamente. Resolvi começar tudo de novo, do zero, como comecei antes desse novo término. Com meus olhos úmidos, parecendo estar sempre cansada, eu continuo. Continuo porque não entendo o caminho, não enxergo o que virá, eu só caminho! Caminho porque meu coração sempre se desespera, e eu não consigo ir além se não me lembrar que existe um alvo. Sinto-me tão pequena quando olho para mim mesma e isso me faz gritar em silêncio e prostrar-me inteira com todos os meus medos: ESPERANÇA, o Salvador virá pela manhã!

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

PARA MARIA DA GRAÇA

Agora que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no país das Maravilhas.
Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.
Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade.
A realidade, Maria, é louca.
Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?”.
Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é o lugar comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás.
Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável.
Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave.
A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: “Oh, I beg your pardon!” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para a tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato.
Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gatos se fosses eu? “.
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namoradas, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! Mas quem ganhou?” É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhastes.
Disse o ratinho: “Minha história é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes.
Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance”. Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mais devagar, muito devagar. Quero dizer seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo”. Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte: É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor.
Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas.
Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”.
Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.

- Paulo Mendes de Campos
"Viver é falar de corda em casa de enforcado"

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Houve um tempo no qual suspeitei que amor cabia em palavras. Estive muito enganada! Amor não cabe fora da vida prática, amor não cabe em definições elaboradas. O amor está nos olhos, no abraço e na fala simples de quem alegra só por estar ao lado.

2013

Todo dia treino minha mente para não enlouquecer. É sempre um treino mais árduo, pede mais dedicação, menos brincadeira, mais importância, menos comodidade. Todos os dias percebo o quanto a vida existe e grita latente encarando meus olhos: ESCOLHE VIDA!

Sei que o treino precisa de mais esforço quando acordo sem perspectiva, choro pelo fim de um ano inteiro e temo a chegada de novos dias, de nova vida. Entendo que devo buscar mais e acomodar-me menos quando olho o horizonte e meus olhos umedecem, tenho sonhos e sinto medo, encaro o céu escuro sem querer erguer a cabeça.

Percebo que preciso amadurecer e sofrer menos quando já entendi que eu nunca controlarei meus dias, que eu não posso ser temporal, e ainda assim tremo com medo de mim mesma, sentindo pena da minha falta de entendimento, da minha mortalidade, da minha ignorância e egoísmo.

Assumo o quanto sou inacabada por dentro quando eu já gritei para a vida e para mim mesma "Não me importo mais com o jogo" e ainda assim fraquejo na certeza que me foi dada: Não cuidará de mim Aquele que nem dos corvos se esquece?

Então meu treino continua mais intenso, pois eu devo esperar e confiar, e isso é VIDA.

"A vida vale mais do que o sustento e o corpo mais do que as vestes" (Lc 12:23)