Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água, pedra, sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos,
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
- Manoel de Barros
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Média de preço da felicidade.
Hoje li uma reportagem no Estadão que dizia "Felicidade custa 11 mil por mês" e anda junto com fatores como: ter religião, NÃO ser jovem, ter filhos e curso superior.
Resolvo tudo rapidamente: ano que vem entro numa faculdade, faço um filho, viro crente-católica-muçulmana-budista-macumbeira-espírita-judia, arrumo um cargo de status em qualquer dessas religiões e ganho meus 11 mil. Claro, não posso deixar de envelhecer bastante (os jovens não tendem à felicidade!).
Pronto. Agora a reportagem fez sentido!
... "Felicidade custa 11 mil por mês"
"Custa"?
Resolvo tudo rapidamente: ano que vem entro numa faculdade, faço um filho, viro crente-católica-muçulmana-budista-macumbeira-espírita-judia, arrumo um cargo de status em qualquer dessas religiões e ganho meus 11 mil. Claro, não posso deixar de envelhecer bastante (os jovens não tendem à felicidade!).
Pronto. Agora a reportagem fez sentido!
... "Felicidade custa 11 mil por mês"
"Custa"?
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
domingo, 22 de agosto de 2010
"All the way down"
Uma saudade malvada bateu bem forte, dilacerou e a deixou de corpo e alma azul. Beijou fotografias, cantou a cena e embalou-se em lembranças. Viveu a noite como todo um dia, naquele repetir de sessões mudas e olhares cansados. E acabando, levantaram-se mudos e seguiram para o nunca, para deixar a solidão mais cúmplice. E a mente entrelaçou-se nesse passado de presente, presente tão passado e nunca mais se conheceram, ou olharam-se ou quiseram-se. A saudade deu espaço a vaga canção e fez doer e doeu. Sendo nada, sendo o tédio, desligou a trilha do dia e seguiu ouvindo aquela que a fez ser criança de novo. Musiquei aquele pouco amado.
sábado, 21 de agosto de 2010
Olhos
Tristes.
Encharcados de não viver
Soluçantes mudos espelhando a alma
Os de vidro, de carne, de lágrimas e espírito.
Medrosos
Vazios de esconderijo
Apavorados de pouco saber
Ansiosos alheios de um futuro desconhecido
Os de sangue, de água, de neve e silício.
Nossos olhos - atrevidos, distintos, implícitos.
Encharcados de não viver
Soluçantes mudos espelhando a alma
Os de vidro, de carne, de lágrimas e espírito.
Medrosos
Vazios de esconderijo
Apavorados de pouco saber
Ansiosos alheios de um futuro desconhecido
Os de sangue, de água, de neve e silício.
Nossos olhos - atrevidos, distintos, implícitos.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
domingo, 15 de agosto de 2010
Nostalgia
Foi naquele dia frio que optou em estar ligeiramente só, ligeiramente sentida, ligeiramente nostálgica e intensamente conformada.
Optou em não se enxergar no espelho com medo de um estranho envelhecimento e, não quis um banho quente, nem frio, nem banho, não quis deixar o edredom.
Naquele dia nevado sem neve, ouviu o pulsar de todos os músculos e de poucos órgãos. Sentiu a dor de ter crescido, a pena de tanto devanear e a loucura de nunca entender. Ah, naquele dia tão oculto, ouviu a música da alma, o tilintar de todas as dores e desejou saber viver.
Levantou-se, mediu-se e riu:
- Acho que ainda não sei viver!
Optou em não se enxergar no espelho com medo de um estranho envelhecimento e, não quis um banho quente, nem frio, nem banho, não quis deixar o edredom.
Naquele dia nevado sem neve, ouviu o pulsar de todos os músculos e de poucos órgãos. Sentiu a dor de ter crescido, a pena de tanto devanear e a loucura de nunca entender. Ah, naquele dia tão oculto, ouviu a música da alma, o tilintar de todas as dores e desejou saber viver.
Levantou-se, mediu-se e riu:
- Acho que ainda não sei viver!
sábado, 14 de agosto de 2010
punhado.
Tenho um pequeno punhado de coisas que gostaria de escrever, mas os termos são desconexos e eu sei que nunca aprendo, mesmo podendo:
Esqueci de tomar o anti alérgico e acordei a noite preocupada com a alergia do dia seguinte. Pela manhã uns espirros, mais psicológicos do que propriamente alérgicos. Esse, o medo mais tolo da semana!
Recebi a notícia do falecimento do pai de uma grande amiga e não mandei mensagem nem telefonei nem disse nada, por não saber consolar ou dizer pesares ou proclamar. Esse, o fato menos humano da semana!
Entristeci-me sorrateiramente por diversas vezes e em seguida, alegrei-me estupendamente. Isso, a coisa mais comum da semana!
Cheguei na ponta dos pés para assustar os cachorros e em seguida vê-los correndo eufóricos com minha chegada. Esse, o fato de todas as semanas!
E ... sonhei, familiarizei, amigavelmente amei e por horas pensei - Sou apenas mais alguém, dispersa em mim, cheia de todos os iguais, cheia da rotina besta de todos os "alguéns".
E esqueci de dizer o da rotina do mundo: - Todos os dias eu chorei!
Esqueci de tomar o anti alérgico e acordei a noite preocupada com a alergia do dia seguinte. Pela manhã uns espirros, mais psicológicos do que propriamente alérgicos. Esse, o medo mais tolo da semana!
Recebi a notícia do falecimento do pai de uma grande amiga e não mandei mensagem nem telefonei nem disse nada, por não saber consolar ou dizer pesares ou proclamar. Esse, o fato menos humano da semana!
Entristeci-me sorrateiramente por diversas vezes e em seguida, alegrei-me estupendamente. Isso, a coisa mais comum da semana!
Cheguei na ponta dos pés para assustar os cachorros e em seguida vê-los correndo eufóricos com minha chegada. Esse, o fato de todas as semanas!
E ... sonhei, familiarizei, amigavelmente amei e por horas pensei - Sou apenas mais alguém, dispersa em mim, cheia de todos os iguais, cheia da rotina besta de todos os "alguéns".
E esqueci de dizer o da rotina do mundo: - Todos os dias eu chorei!
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